Estivemos lá
No âmbito do protocolo da ASSP com a Casa de Repouso “Verde Pinho” e correspondendo à proposta desta instituição, a nossa Delegação participou activamente na sua festa de Natal, através das associadas Augusta Macedo e Celme Pedreiro, que deram voz a textos da sua autoria: um conto de Natal, “Belém dentro de portas”, e um pequeno poema, “Por um mundo melhor. “Correu bem!” – foi a nota positiva dos comentários, retorno essencial para quem se empenhara em fazer o seu melhor e acabou a viver uma experiência gratificante.
Era o dia 24 de Dezembro. Um silêncio misterioso caía sobre um pobre lugarejo sem direito a nome no mapa e bem longe do centro da freguesia. A custo se localizava o sol, esvaído de calor, e se pisava uma terra com pontos de neve aqui e acolá. Era Inverno, sem dúvida, mas dia de Consoada. Não se via uma árvore de Natal na única e estreita ruela que serpenteava entre as casas, um todo de quatro. Casas tão humildes e velhas quanto os donos, tão graníticas quanto o amor à terra dos que as tinham construído. Numa tentada e tímida fuga para a vertente inclinada da montanha, uma casita pintada de branco, onde se dizia viver uma mãe solteira com um filho de meses!
Eram já cinco da tarde. Escurecia e a Noite de Natal parecia não perturbar o quotidiano.
Para João, o ferreiro do local, verdadeiro artista conhecido por trabalhar ao ritmo do assobio ou assobiar ao ritmo do martelar, chegara ao fim o dia de trabalho. A encaminhar-se para casa, vira o vizinho Joaquim, um pequeno agricultor, já curvado e trôpego, com um braçado de erva e uma sacola de serapilheira. Casado, sem filhos, Ana era a sua mulher.
- Como eu, acabando o trabalho, Sr. Joaquim?!
- O frio aperta e, em Noite de Natal, sempre se vai para casa mais cedo! Diz-me lá, ó João, quantas coisas lindas tens tu em mãos para fazer?
- Algumas, Sr. Joaquim, algumas, mas ainda me falta fazer a mais bonita de hoje! E essa coisa linda vai vê-la mais logo! Mas, vem cansado… Aonde foi?
- Fui a casa do Manuel do Reimão pedir, para mim, um punhado de batatas e um pouco de erva para a Mimosa… Costuma e foi, outra vez, generoso.
E, de novo, o Sr. Joaquim vergava-se ao peso da sacola e ajeitava o abraço à erva, em direcção a casa. O João escondeu o seu sorriso e chamou de novo a música com o seu assobio. Em casa, herdada dos pais, o silêncio sempre o tinha ele enchido com os sons que criava. Poucos metros à frente, à esquerda da velha ruela, encontrou o Ti Bernardino, sozinho, ainda sentado no seu banco de pedra, esquecido da vida e do tempo. Ao seu lado, o único companheiro sempre disponível: o seu bordão de apoio. Dois dedos de conversa tê-los-ia tido, nesse dia, se por acaso por ali alguém tivesse passado…
- São horas de recolher a casa, Ti Bernardino. Já está muito frio e o relento não é amigo de ninguém! Quero ver, da minha casa, a sua chaminé a fumegar!
- Aquecer uma tigela de sopa não justifica fazer muito brasido! Até o fazia se me garantissem que, com o fumo do acender a fogueira, se escaparia a solidão da Noite que se aproxima!
- Ainda antes de comer a sua sopa, passarei por lá para também me aquecer. Piscou-lhe, ao mesmo tempo, um olho.
Nada mais precisou de dizer. João viu-o a pôr-se de pé e continuou a rumar a casa sem deixar morrer a ideia que em si nascera, dias antes, enquanto massacrava o ferro rubro. Pelo caminho, passara ainda pelo Ti Zé, o dono do único meio de transporte de mercadorias: o burro Tobias! Foi encontrá-lo a amaldiçoar o dia, a sorte, todos os santinhos da sua devoção… Enfim … a vida.
- Há dias que não faço um único frete, João, e palha seca será, mais uma vez, a ceia do meu Tobias. Logo hoje!
- Ti Zé, o Tobias está melhor do que nós. Não tem erva fresca, como diz, mas também não tem o peso da albarda nem…
João interrompeu-se, esticando as suas mãos e pondo-as ao lado das do vizinho. Calejadas umas e outras. Umas queimadas pelo fogo, outras pela neve.
- Chegue-se aqui, ti Zé, – e sussurrou-lhe qualquer coisa ao ouvido. O Tobias não podia saber.
Ti Zé sorriu.
Entretanto, Joaquim chegara a casa. Ana já tinha acendido o lume. As labaredas iluminavam a cozinha e reforçavam o ponto de luz que era a candeia dependurada no beiral da chaminé. Entregara a sacola à mulher e fora tratar da Mimosa. A sua vaca teria a cama mudada e ementa melhorada nessa Noite.
Ao reentrar, Joaquim, orientado pelo cheiro, descobrira uma enorme travessa de aletria bem amarelinha, sobre a qual Ana desenhava, com a ponta dos dedos, cuidadosamente e com traço firme, um xadrez miudinho com canela. Ao ser surpreendida, logo acrescentou:
- Pode sempre chegar alguém, Joaquim!
- Lá estás tu, sempre com as tuas ideias, mulher! Nós dois e com as memórias dos que já partiram somos muitos!
-Haverá talvez algum desgraçado, marcado pela solidão, pelo abandono ou pelo cansaço do dia, que possa aparecer. Afinal é Noite de Natal.
O tempo foi passando, as panelas fumegando, o espaço aquecendo e a natureza quase adormeceu sem adivinhar o que o próprio João “ andava a cozinhar”. Esticavam a toalha branquinha sobre a mesa quando Joaquim e Ana, quase em simultâneo, sentiram passos no caminho. Minutos depois, eis que batem à porta. Olhos arregalados, Joaquim foi abrir. Lá estava o Ti Bernardino, apoiado à ombreira da porta e ao seu amigo cajado.
-Junte-se a nós, Ti Bernardino. Em casa de lavrador, por muito modesto que seja, nesta Noite, há sempre uma lasca de bacalhau, um talo de couves e um copo de vinho!
- E umas boas colheradas de aletria – acrescentou Ana.
Bateram à porta de novo. Eram o João e o Ti Zé.
-Tu sabias disto, Mulher?! Tu sabias que tínhamos a casa cheia, uma mesa aberta aos sozinhos, como nós, nesta Noite de Natal?!
Com o coração a não lhe caber no peito, Ana, igual a si mesma:
- Há sempre coisas a acontecer por aí!!!…
Acomodados ao calor da fogueira, atropelavam-se nas palavras que no dia-a-dia secretamente guardavam. O bem-estar que sentiam era de paz total. Para todos os do lugar ali estarem reunidos, só faltava a mãe solteira e o seu filho. Mas eis que, como que a medo, novamente batem à porta. O dono da casa foi, mais uma vez, abri-la. Joaquim estendeu os braços e todos se fixaram no rosto da mulher a quem ele dava as boas-vindas. Trazia ao colo o seu filho e numa mão um cestinho coloridamente aconchegado. Num instante, o silêncio enchera a cozinha e apagara as palavras de todos. Ninguém a conhecia, nem o seu nome sabiam.
- Vamos chamar-lhe “Maria”, antecipou-se o João, poupando-a a qualquer situação embaraçosa...
Tinha vindo orientada, não pelas estrelas, que não sabia ler, mas pela única chaminé do lugarejo que fumegava. Todos se entreolharam e uma emoção de Natal rapidamente a todos aqueceu. À Ana, sempre observadora e perspicaz, logo lhe veio à cabeça o Presépio que nunca tinha feito na sua casa. Iriam todos fazê-lo ao vivo:
- Ninguém é Rei, mas todos são Magos.
- Eu trago o ouro na EXPERIÊNCIA que o tempo me deu! – disse o Ti Bernardino;
- Eu trago o incenso na ALEGRIA que espalho – garantiu o João;
-Eu trago a mirra na ESPERANÇA de um amanhã melhor – filosofou o Ti Zé.
De mãos vazias…muito tinham trazido, afinal.
“ Maria” deu então, oportuna e envergonhadamente, um passo em frente, murmurando:
- Eu trago a VIDA! – e olhava para o seu filho. Encaminhando-se para o cestinho, acrescentou: E trago, ainda… estes Sonhos…
Ana sorriu para João e, com a ponta do xaile que trazia pelas costas, limpou os olhos vermelhos do fumo e molhados pela emoção mal contida.
Ouviu-se, no curral, a Mimosa restolhar na palha e, mais longe, no silêncio da noite, o zurrar do burro Tobias. Participavam, também eles, a seu modo, neste Presépio.
Joaquim estendeu as mãos à mulher e disse simplesmente:
- BELÉM está aqui!!
Natal de 2017
Mª Augusta Macedo